Carnaval e ansiedade: a euforia que pode esconder solidão

O Carnaval é conhecido por sua alegria contagiante, fantasias coloridas e uma sensação de liberdade coletiva. No entanto, por trás da euforia, muitas pessoas podem estar enfrentando sentimentos de ansiedade e solidão. Para quem já lida com questões emocionais, essa época do ano pode ser um verdadeiro desafio. Vamos explorar como a pressão social, as redes sociais e os exageros típicos do período podem impactar a saúde mental e como curtir o Carnaval de forma mais saudável e equilibrada.

Compreensão Psicológica do Carnaval e Seus Impactos

Euforia Coletiva e Seus Significados


A euforia coletiva do Carnaval pode ter efeitos diferentes nas pessoas. Para quem já sofre com ansiedade ou solidão, essa festa pode intensificar sentimentos negativos. A sensação de que “todos estão felizes” pode gerar uma comparação interna, levando ao aumento da ansiedade e do sentimento de inadequação. Segundo a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), essa comparação pode ser fruto de distorções cognitivas, como a generalização e o pensamento dicotômico (conhecido como tudo ou nada).

Pressão Social e o Impacto Emocional


A pressão para aproveitar ao máximo o Carnaval também é intensa. Frases como “você tem que se divertir” podem desencadear o medo de não corresponder às expectativas sociais. A neurociência aponta que essa pressão pode ativar a amígdala, região do cérebro associada ao estresse e à resposta de luta ou fuga, aumentando os sintomas de ansiedade.

 

Carnaval como Válvula de Escape


Para algumas pessoas, o Carnaval se torna uma válvula de escape para lidar com questões emocionais mal resolvidas. No entanto, quando a festa acaba, o retorno à rotina pode trazer à tona sentimentos de vazio e frustração. Na TCC, isso pode ser explicado pela falta de habilidades para lidar de forma adaptativa com as emoções, levando à busca por prazer imediato como forma de aliviar o desconforto.

 

Redes Sociais e Comparação Social

 

Hiperexposição e Sensação de Inadequação


As redes sociais amplificam a sensação de que todos estão vivendo momentos incríveis durante o Carnaval. Imagens e vídeos de festas, encontros e sorrisos constantes podem levar quem não está no mesmo ritmo a sentir que está “perdendo algo” ou que sua vida não é tão interessante quanto a dos outros. Essa comparação social pode gerar sentimentos de inferioridade, baixa autoestima e até mesmo intensificar quadros de ansiedade e depressão.

 

Estratégias práticas, como limitar o uso das redes sociais durante esse período, seguir perfis que promovam bem-estar e praticar a autocompaixão, podem ajudar a lidar melhor com essa sensação de inadequação. Se esses sentimentos persistirem, buscar terapia pode oferecer uma oportunidade de explorar essas questões em profundidade e encontrar caminhos para fortalecer a saúde mental. 

 

Quando a Validação Externa Se Torna Preocupante


A necessidade de validação externa pode ser um sinal de alerta. É possível identificar essa busca excessiva por validação observando alguns comportamentos, como:

 

  • Publicar com frequência excessiva: especialmente se a intenção for receber curtidas e comentários como fonte de satisfação.
  • Monitorar obsessivamente as interações: checar constantemente se houve curtidas, visualizações ou respostas.
  • Sentir-se frustrado ou triste: quando as interações não atingem as expectativas.
  • Alterar comportamentos para agradar os outros: publicar apenas o que se acredita que será bem aceito, mesmo que não reflita a realidade.

 

A TCC auxilia na identificação dessas distorções cognitivas e promove o desenvolvimento da autocompaixão e da autoaceitação, reduzindo a necessidade de validação externa. Se essa dependência for persistente, a terapia pode oferecer um espaço seguro para explorar esses sentimentos e encontrar formas mais saudáveis de lidar com eles.

 

O Papel do Consumo de Álcool e Outros Exageros

 

Álcool – Entre a Diversão e a Fuga


O consumo excessivo de álcool pode ser usado como um mecanismo de fuga para lidar com a ansiedade. A diferença entre um consumo recreativo e um consumo preocupante está na intenção: se a bebida serve para “anestesiar” sentimentos, é importante ficar atento. Além disso, o álcool pode agravar sintomas de ansiedade, já que interfere na química cerebral, principalmente nos níveis de serotonina e GABA.

 

Excesso de Estímulos e Crises de Ansiedade

O Carnaval é um período de muitos estímulos, como: barulhos altos, aglomerações e movimentações constantes. Para quem já tem tendência à ansiedade, essa sobrecarga sensorial pode ser um gatilho para crises.

Para manter o controle emocional em ambientes muito estimulantes, algumas estratégias podem ajudar:

  • Técnicas de Aterramento: focar nos sentidos, como sentir o toque dos pés no chão, observar objetos ao redor ou ouvir sons específicos, ajuda a trazer a mente para o momento presente.
  • Respiração Diafragmática: inspirar lentamente pelo nariz, enchendo o abdômen, e expirar pela boca, promovendo o relaxamento do corpo.
  • Pausas Regulares: se afastar um pouco do ambiente agitado, buscar um local mais calmo e permitir-se alguns minutos de silêncio.

 

Caso esses recursos não sejam suficientes, a terapia cognitivo-comportamental pode oferecer suporte adicional, ajudando a pessoa a desenvolver habilidades de enfrentamento personalizadas.

 

Estratégias para um Carnaval Mais Equilibrado

 

Transformando o Carnaval em uma Experiência Positiva


Para quem sente que o Carnaval desperta ansiedade ou solidão, algumas estratégias podem ajudar:

  • Autoconhecimento: reconhecer seus próprios limites e respeitá-los.
  • Planejamento: escolher atividades que tragam conforto e segurança emocional.
  • Apoio Social: estar perto de pessoas com quem se sinta à vontade.
  • Buscar Terapia: se os sentimentos de desconforto persistirem, o acompanhamento psicológico pode ser uma excelente ferramenta para acolher as emoções e desenvolver habilidades de enfrentamento.

Como Ajudar Alguém Próximo

Se você percebe que um amigo ou parente está usando o Carnaval para mascarar problemas emocionais, aborde o assunto com empatia e respeito. Inicie uma conversa aberta dizendo algo como “Tenho percebido que você não parece muito bem ultimamente. Gostaria de conversar sobre isso?”. Ofereça seu apoio sem pressão, reforçando que você está disponível para ouvir, caso ele queira desabafar. Compartilhar recursos, como escutar ativamente, indicar grupos de apoio ou informações sobre terapia, pode ser útil, mas sempre respeite o tempo da pessoa. Nem sempre ela estará pronta para falar, então mantenha-se disponível sem invadir o espaço dela.


Alternativas para Quem Não Gosta de Carnaval


Para aqueles que não se identificam com a folia, é possível aproveitar o feriado de forma leve e sem pressão. Atividades como maratonar séries, praticar um hobby ou simplesmente descansar podem ser ótimas opções. Além disso, viagens para locais mais tranquilos, como sítios, praias menos movimentadas ou contato com a natureza, podem trazer um enorme bem-estar. Outra ideia é aproveitar o período para atividades de autocuidado, como meditação, leitura, cursos online ou colocar em prática projetos pessoais que trazem satisfação e realização.

 

Conclusão


O Carnaval pode ser um período de muita diversão, mas também merece atenção quanto aos impactos na saúde mental. Reconhecer seus próprios sentimentos, respeitar seus limites e buscar estratégias saudáveis são passos importantes para aproveitar de forma equilibrada. Se necessário, não hesite em buscar apoio psicológico. Afinal, cuidar da mente é essencial em qualquer época do ano!

 

*Por Jéssica Aparecida Leite Sabará – CRP 06/186199
Psicóloga Clínica Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental

 

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