Membros do partido conservador cristão CDU, provável líder do futuro governo, flertam com a reativação do gasoduto Nord Stream – sob controle americano. Proposta é incompatível com metas climáticas de Berlim.Parlamentares da União Democrata Cristã (CDU), da Alemanha, provocaram celeuma ao apoiar um aparente plano dos Estados Unidos para consertar e reabrir os gasodutos Nord Stream, no Mar Báltico, entre a Rússia e a Alemanha.
O ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, confirmou na quarta-feira (26/03) que negociações com Washington sobre a Ucrânia incluíram uma discussão sobre restabelecer as redes de transporte de gás natural. Antes, o jornal alemão Handelsblatt noticiara que um investidor americano havia requerido a seu governo a permissão para comprar o Nord Stream.
O deputado federal da CDU Thomas Bareiss saudou a ideia, numa longa postagem no LinkedIn, comentando “como nossos amigos americanos são empreendedores”: “Quando a paz estiver restaurada, e as armas silenciarem entre Rússia e Ucrânia (e esperemos que seja em breve), as relações vão se normalizar, os embargos serão levantados mais cedo ou mais tarde e, claro, o gás vai voltar a fluir, agora talvez num gasoduto sob controle dos EUA.”
Bareiss foi secundado no website Politico por seu correligionário Jan Heinisch, membro do grupo de trabalho para energia nas negociações de coalizão governamental entre democratas-cristãos e o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda: “Se uma paz justa e segura for encontrada um dia, então devemos ter a permissão de voltar a falar de comprar gás russo.”
O que é o Nord Stream
A rede Nord Stream se compõe por dois gasodutos, cada um com duas tubulações, indo desde o noroeste russo até a litoral nordeste alemão. Completado em 2021, o Nord Stream 2 nunca entrou em funcionamento. Já o Nord Stream 1 foi inaugurado em 2011, suprindo grande parte da Europa com gás russo através de um consórcio que incluía a Gazprom, da Rússia, e diversas companhias alemãs, francesas e holandesas.
A Rússia fechou esse gasoduto em 1º de setembro de 2022, sob o pretexto de que as sanções da União Europeia tornavam sua operação tecnicamente impossível. Essa afirmativa foi rebatida pela companhia alemã Siemens, encarregada da manutenção da turbina.
Mas em 26 de setembro três das quatro tubulações do sistema foram destruídas, num aparente ato de sabotagem. Os autores ainda não foram identificados, mas em 2024 as autoridades alemãs expediram mandado de prisão contra um suspeito ucraniano, que continua à solta.
De volta à dependência da Rússia?
O Ministério da Economia alemão, encabeçado pelo verde Robert Habeck, ainda do atual governo de coalizão de maioria social-democrata, descartou a ideia de retomar as importações de gás da Rússia. Pouco depois de virem a público os boatos das conversações russo-americanas, no início de março, sua pasta declarou, em comunicado: “A independência em relação ao gás russo é de importância estratégica e de defesa para o governo alemão, e ele a manterá.”
No entanto o país está prestes a formar um novo governo, tendo muito provavelmente como chanceler federal o líder da CDU, Friedrich Merz, com os social-democratas como parceiros minoritários. Uma volta ao combustível russo – mesmo num futuro hipotético, de paz entre Kiev e Moscou – representaria uma guinada de praticamente 360º para o país.
Por sua vez, falando à emissora pública ZDF, o copresidente da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), Tino Chrupalla, elogiou os comentários de Bareiss: “Saúdo o fato de que um parlamentar da CDU esteja procurando um modo de perseguir uma política guiada por interesses. Precisamos voltar a receber gás pagável da Rússia, sob o controle dos parceiros comerciais envolvidos.”
Em contrapartida, a diretora do departamento Ambiental do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW), Claudia Kemfert, acha que essa “não é uma boa ideia”: “Há muito tempo sabemos que a Rússia não é uma fornecedora confiável. Perante as guerras da energia fóssil em todo o mundo, seria desastroso voltar a ser dependentes de um agressor – geopoliticamente, seria irresponsável.” Não só isso, acrescenta: um acordo russo-americano em torno do Nord Stream tornaria a Alemanha duplamente dependente.
O professor de direito ambiental e de energia Michael Rodi, da Universidade de Greifswald, mostrou-se perplexo que tal ideia tenha voltado a emergir no país: “É uma discussão estranha. É surpreendente que ela tenha partido da CDU, mas não surpreende, em absoluto, que os verdes assumam a posição contrária.”
Social-democratas, conservadores cristãos e seu passado pró-russo intrincado
Fora a AfD, a sigla alemã que historicamente tem se mostrado mais aberta a manter os laços com Moscou é o SPD. “Mudança pela reaproximação”, era o slogan com que os social-democratas defendiam uma distensão política em relação à União Soviética, durante a Guerra Fria.
O ex-chanceler federal alemão Gerhard Schröder, que se classifica como amigo pessoal do presidente russo, Vladimir Putin, ainda é nominalmente o presidente de conselho da Nord Stream. Nos meses após a invasão em ampla escala da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, o SPD foi severamente atacado pela CDU por suas antigas conexões pró-russas e por seu papel-chave nas negociações da Nord Stream.
No mesmo ano, falando à rádio Deutschlandfunk, Merz exigiu que a dependência energética alemã para com a Rússia tivesse fim imediato, além do estabelecimento de uma comissão parlamentar para investigar as conexões dos social-democratas com o Kremlin. Tal inquérito, insinuou, “provavelmente revelará que os envolvimentos do SPD vão muito mais fundo do que sabemos hoje”.
O presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, também social-democrata, admitiu publicamente responsabilidade por seu papel como ministro do Exterior do governo de Angela Merkel: “Meu comprometimento com o Nord Stream 2 foi claramente um erro. Nós nos aferramos a pontes em que a Rússia não acreditava mais, e contra as quais os nossos parceiros nos advertiram.”
Em contrapartida, sua então ex-chefe de governo Merkel, por muitos anos líder da CDU, defendeu ferrenhamente, em entrevista à BBC, em novembro de 2024, os laços que estabeleceu com a Rússia e o bloqueio sistemático do ingresso da Ucrânia na Otan, rechaçando qualquer culpa pessoal pela atual situação da Europa.
Transição verde em perigo
Embora uma restauração do gasoduto seja tecnicamente praticável – a um custo estimado de 500 milhões de euros – a companhia Nord Stream, sediada na Suíça, se encontra atualmente em processo de falência, portanto as instalações estariam teoricamente à venda, por um preço baixo.
Entretanto, qualquer comprador estaria apostando tanto que a paz na Ucrânia resultaria num alívio das sanções conta Moscou, quanto numa lentidão extrema na adoção de energias renováveis pela Europa. Pois, como argumenta Rodi, “se a transição energética for um sucesso, não haverá grandes mercados para o gás russo”.
“Gás natural fóssil não tem futuro conosco – isso é certo”, reforça Kemfert, do DIW. “No âmbito do Acordo de Paris, estamos comprometidos com a neutralidade climática, a qual temos que alcançar. A decisão de abandonar gradualmente os combustíveis fósseis foi tomada muito tempo atrás, agora temos que agir, por fim.”
Contudo não está claro se já vontade política de impulsionar a transição energética e manter a independência perante a Rússia, no futuro. Ao que tudo indica, pelo menos parte do provável futuro governo alemão não está tão comprometido assim com essa segunda meta.