Redução da pobreza: O que Lula pode aprender com o marketing de Milei

""TalvezLula teve sucesso na redução da pobreza no Brasil e ganhou elogios no mundo todo. No Brasil, porém, poucos parecem apreciar ou saber disso. Milei pode mostrar com vender esse fato politicamente para o público interno.A pobreza na Argentina caiu significativamente durante o governo de Javier Milei, depois de uma explosão registrada nos primeiros seis meses após ele ter assumido o poder. No primeiro semestre do ano passado, a taxa ficou em 52,9%. No segundo semestre, houve uma redução de 14,8 pontos percentuais, ficando em 38,1%, de acordo com Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) do país.

Milei comemora esses dados como um grande sucesso de sua política. “Dia ruim para os babuínos. A pobreza caiu fortemente”, triunfou nas redes sociais.

Quando Milei assumiu o governo argentino, a taxa de pobreza era de 41,7%. A queda da inflação foi fundamental para a diminuição nesse índice. De fato, a pobreza hoje está menor do que a registrada durante quase todo o mandato de seu antecessor peronista Alberto Fernández e de sua vice Christina Kirchner.

A redução da pobreza é, sem dúvida, um sucesso político importante para Milei. No entanto, há pouco para comemorar: 11,3 milhões dos 45 milhões de habitantes da Argentina ainda são pobres. Para 2,5 milhões deles, sua renda não é suficiente para suprir as necessidades alimentares. Crianças com menos de 14 anos são o grupo mais afetado: quase 52% dos menores nessa faixa etária vivem na pobreza.

Brasil como exemplo

Um olhar para além da fronteira norte, para o Brasil especificamente, mostra uma política de combate à pobreza de longo prazo bem-sucedida. A pobreza caiu de 31,6% para 27,4% em 2023. Ou seja, durante o primeiro ano do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva 8,7% dos brasileiros deixarem de ser considerados estatisticamente pobres.

O programa de transferência de renda Bolsa Família, que foi aumentado para famílias com crianças pequenas, é um dos fatores que explica essa mudança. Além disso, ele é complementado por várias medidas sociais: microcrédito, Luz para Todos, programas de habitação social e pelo SUS.

Ainda não há dados recentes, mas o Banco Mundial acredita que a pobreza no Brasil diminuiu ainda mais no ano passado. Isso é plausível, pois a economia brasileira está crescendo e os número de empregados aumentando.

Em setembro de 2024, a Fundação Bill & Melinda Gates premiou Lula por sua política de combate à pobreza e à fome. O Banco Mundial também elogiou os avanços do Brasil nesse campo. Em novembro de 2024, no âmbito da cúpula do G20, Lula iniciou a Aliança Global contra a Fome.

No mundo todo, 80 países implementaram programas de combate à pobreza seguindo o modelo brasileiro. A combinação entre obrigatoriedade de frequentar a escola para as crianças e exames de saúde como pré-requisitos para receber a assistência social provou ser uma combinação eficaz no combate à pobreza.

Falta marketing

Mas isso quase não é percebido de forma positiva no Brasil. Há críticas constantes nos círculos empresariais e nas redes sociais que alegam que o Bolsa Família desestimula os beneficiários a procurarem um emprego. Não há dúvida que possa haver desincentivo em alguns casos ou ainda pessoas que recebem o benefício ilegalmente. Por exemplo, ao declarar que vivem sozinhos, quando ainda moram com os pais ou parentes.

Qualquer um que conhece os instrumentos de assistência social usados politicamente pelos países vizinhos, como a Argentina, terá uma boa surpresa com a qualidade e eficiência do sistema social brasileiro. Um rendimento social mínimo de subsistência é um instrumento civilizatório decisivo num país com uma disparidade de renda tão grande como no Brasil.

Talvez Lula e sua equipe de comunicação possam se inspirar na estratégia de propaganda de Milei. Ele só não precisaria xingar seus críticos de babuínos.

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Há mais de 30 anos o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.

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