Repressão militar dificulta acesso à ajuda humanitária em Mianmar

"AuxílioDiversos países tem enviado recursos, pessoal e itens básicos para as vítimas do terremoto que atingiu Mianmar. Mas conflito armado e uso político do auxílio internacional dificultam acesso pela população.A ajuda internacional tem chegado a Mianmar desde que um terremoto de magnitude 7,7 deixou um rastro de destruição no país empobrecido e assolado por conflitos. A guerra civil travada no país há quatro anos, porém, tem dificultado o acesso da população a itens essenciais.

O número de mortos do terremoto já passava de 3 mil nesta quinta-feira (03/04), de acordo com a televisão estatal de Mianmar. Outras 4,1 mil pessoas estão feridas. A escala total do desastre ainda não pode ser mensurada. As operações de busca e resgate seguem em andamento.

As agências de ajuda humanitária alertam para a necessidade urgente de água, alimentos, abrigo, suprimentos médicos, saneamento e outros serviços nas áreas atingidas pelo terremoto.

Vários países, incluindo Índia, China e Rússia, enviaram materiais de socorro e equipes para ajudar as autoridades de Mianmar nas operações de resgate e socorro. O pedido de auxílio estrangeiro foi um raro movimento da junta militar que administra o país.

A cidade inteira de Sagaing, próxima ao epicentro do tremor, foi devastada, disse Khin Ohmar, ativista e fundadora da organização de direitos humanos Progressive Voice of Myanmar.

“A cidade pode ser acessada pelo rio Irrawaddy a partir de Mandalai. No entanto, toda a região de Sagaing foi amplamente afetada, e as pessoas não têm acesso à ajuda”, observou ela.

“Há lugares que a mídia ou as equipes de resgate ainda não conseguem acessar. A única ajuda que chega às vítimas e às comunidades afetadas vem principalmente das próprias pessoas. É devastador.”

O terremoto também causou danos graves em Naypyitaw, a capital do país e reduto militar, onde até mesmo a torre de controle de tráfego aéreo do aeroporto internacional desabou.

Aung Thu Nyein, um analista político de Mianmar, disse que “há um caos” na cidade.

“Não há equipes de resposta rápida… Um comitê nacional de gestão de desastres está organizado no papel, mas não vejo nenhuma operação como essa”, disse ele à DW.

Khin Ohmar também lançou dúvidas sobre a capacidade e a inclinação da junta para entregar os recursos aos necessitados.

“O que vemos é que essa ajuda internacional será transferida em dinheiro ou em espécie para as mãos dos militares de Mianmar”, disse ela.

“A Cruz Vermelha de Mianmar e a Organização de Desastres Naturais de Mianmar – duas entidades que são afiliadas ou estão sob o controle dos militares – acreditamos que elas administrarão o auxílio internacional”, disse ela à DW. “É uma grande preocupação. Já se passaram cinco ou seis dias e o auxílio internacional não está chegando às pessoas.”

O desafio da violência

O acesso às áreas mais atingidas tem sido dificultado não apenas pelas estradas destruídas e pela comunicação precária, mas também pela violência contínua entre a junta militar no poder e uma miscelânea de grupos armados que se opõem ao governo.

Agências da ONU e grupos de direitos humanos pediram uma trégua aos lados do conflito. O Governo de Unidade Nacional (NUG), de oposição, disse que as milícias anti-junta sob seu comando interromperiam todas as ações militares ofensivas por duas semanas a partir do último domingo. O NUG inclui remanescentes do governo civil eleito, deposto pelos militares em um golpe em fevereiro de 2021 que desencadeou a guerra civil.

No final da última terça-feira, uma aliança de três dos mais poderosos grupos armados de minorias étnicas de Mianmar também anunciou uma pausa nas hostilidades para apoiar os esforços humanitários.

No entanto, nos últimos dias, houve vários relatos de ataques aéreos militares contra grupos rebeldes. Segundo Khin Ohmar, tal ofensiva impede as comunidades locais de ajudar os necessitados.

“Em Sagaing, esses ataques estão afetando gravemente as missões e colocando em risco a vida das comunidades afetadas, inclusive sobreviventes e voluntários.”

Somente na quarta-feira a junta militar anunciou que cessaria as agressões temporariamente, até 22 de abril.

Ajuda humanitária como arma

Richard Horsey, consultor sênior da ONG Crisis Group, que atua na prevenção de conflitos armados internacionais, disse que fazer os recursos chegarem a quem precisa é um grande desafio na situação atual, motivado não apenas pelos ataques aéreos.

“Há pontos de controle e restrições à entrada de mercadorias em áreas contestadas. Eles não foram criados para interceptar a ajuda ao terremoto, mas ainda estão lá”, ressaltou.

“Os ataques aéreos não afetam diretamente os esforços de ajuda. Mas criam um contexto no qual fica claro que o regime não está disposto a interromper sua ofensiva, o que gera outras preocupações na mente das pessoas”, acrescentou.

Zachary Abuza, professor do National War College em Washington, D.C., que se concentra na política do sudeste asiático, criticou as ações dos militares de Mianmar.

“Os militares estão tentando tirar proveito dessa terrível catástrofe humanitária”, disse ele à DW. “A junta isolada diplomaticamente está conseguindo angariar apoio internacional. Eles estão transformando a ajuda humanitária em uma arma e fazendo de tudo para impedir que a assistência humanitária chegue a regiões fora de seu controle.”

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