‘Amigos, amigos, negócios à parte’: países alinhados a Trump também são taxados

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nunca teve receio de criar desafetos ao longo da vida política. Apesar das decisões controversas e radicais, incluindo retaliações tarifárias, o republicano acumula aliados leais distribuídos pelo globo.

Um dos mais notáveis apoiadores de Trump é o argentino Javier Milei – que, alinhado à extrema-direita, coloca o país latino sob as exigências norte-americanas. Porém, nem mesmo Milei foi poupado das tarifas impostas pela Casa Branca, assinalando 10% de taxa para produtos importados.

Outros parceiros históricos dos EUA, como o Japão, também entraram na lista de afetados, o que demonstra que Trump não parece ter a intenção de levar as “amizades” muito além do campo simbólico.

Política x Amizade

Na última quinta-feira, 3, Donald Trump anunciou uma taxação de 10% sobre todos os produtos argentinos. A ação segue a onda das guerras comerciais travadas pelo republicano desde sua posse, em 20 de janeiro, mas traça uma característica diferente – o líder do país latino, Javier Milei, é um dos aliados mais fiéis de Trump.

Prova disso foi a reação do presidente argentino, que comemorou a tarifa imposta pelos EUA. Segundo Milei, a taxação de “apenas” 10% (que é o valor mínimo universal) representa a relação de amizade entre os países.

Não só isso, o líder ultraliberal ainda alegou que pretende mudar a legislação argentina para adaptar-se às novas medidas americanas. Ele considera isso “um passo à frente” para “avançar em um acordo comercial” no qual “tarifas e barreiras comerciais sejam apenas uma má lembrança do passado”.

O mesmo movimento de taxação aconteceu com países que possuem acordo de livre comércio com Estados Unidos, como Costa Rica, Nicarágua, Chile, Peru e Coreia do Sul. Japão, outro parceiro histórico da potência, ficou entre os mais taxados, chegando a 24% .

Marcos Cordeiro Pires, professor de Economia Política Internacional da Unesp, ainda ressalta que diversos líderes mundiais – ainda que bem vistos pela Casa Branca, faz parte dos afetados pelas decisões estadunidenses

“Nayeb Bukele, presidente de El Salvador, está indo para os EUA na semana que vem para ser recebido por Trump pelos bons serviços prestados em relação aos imigrantes ilegais. E, de novo, se você olhar a lista de taxações, El Salvador tem 10% de tarifa”

Critérios econômicos

O governo americano divulgou uma fórmula matemática que estaria sendo usada para calcular a porcentagem tarifária imposta sob o resto do globo. A conta leva em conta o superávit de cada país – que acontece quando uma nação importa mais produtos do que exporta.

Mas, de acordo com Marcos, o cálculo frágil e as tarifas sobre países “amigos” evidenciam que os critérios de Trump têm pouca lógica definida.

“Não há nenhuma lógica na quantidade ou na forma como essas tarifas foram feitas. Não tem nada que indique que a questão de amizade influencie em algo”.

O especialista ressalta que Donald Trump possui o costume de “criar problemas” para, posteriormente, negociar caso a caso.

“A única lógica é colocar uma série de tarifas para depois, um a um, fazer uma negociação bilateral e tentar arrancar alguma vantagem que ele não conseguiria antes sem estabelecer a chantagem comercial”, pontua.

Nessa direção, Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, afirma que as prioridades norte-americanas estão muito mais ligadas às circunstâncias econômicas do que às relações pessoais entre líderes.

“Mesmo com países aliados, se houver um déficit comercial significativo para os Estados Unidos, as tarifas podem ser impostas na tentativa de reequilibrar a balança. Além disso, há proteção da indústria nacional, ou seja, a política de ‘America First’ de Trump prioriza as indústrias americanas”.

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