PlatôBR: A estratégia do governo para evitar crise com o Paraguai

O governo brasileiro tenta não deixar que o embaraço diplomático com o Paraguai escale para uma crise entre os dois países. Para isso, a ordem no Palácio do Planalto é explicar muito bem às autoridades paraguaias as circunstâncias em que houve, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma operação hacker em sistemas do país vizinho em busca de informações sigilosas a respeito das negociações sobre as tarifas da usina hidrelétrica de Itaipu. A informação foi publicada pelo jornalista Aguirre Talento, no site Uol, na última segunda-feira, 31.

Além de tentar apontar a culpa para a gestão anterior, a diplomacia brasileira investe em dar um tempo para arrefecer o constrangimento instalado após as revelações, dando oportunidade para que o presidente Santiago Peña Palacios possa fazer um discurso interno de defesa da soberania. Um membro da diplomacia brasileira disse que é preciso deixar o tempo correr, mesmo que as divergências escalem um pouco mais neste momento, e agir com calma quando as coisas esfriarem.

No mesmo dia em que a notícia veio a público, Lula, recém chegado da viagem que fez à Ásia, determinou que o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, entrasse em campo para evitar possíveis danos na relação com o presidente Peña Palacios. Para munir o Itamaraty de informações, o diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, foi chamado ao Planalto para prestar explicações ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, a quem a agência está subordinada.

Linha do tempo

Corrêa cancelou compromissos e seguiu para o Planalto, onde apresentou, em sua defesa, uma linha do tempo. Além de apontar que a autorização para a espionagem havia sido dada pelo governo anterior, de Jair Bolsonaro, também indicou que, quando as ações teriam ocorrido, ele ainda enfrentava sua sabatina no Senado para ter o nome aprovado para o cargo. As explicações apresentadas por Mauro Vieira tiveram como base essas informações passadas por Corrêa. De acordo com fontes palacianas, o diretor da agência foi convincente e, por enquanto, não está ameaçado de demissão.

Atualmente, a Abin é subordinada à Casa Civil. No governo anterior, quando a agência era chefiada por Alexandre Ramagem, hoje deputado federal, o órgão era ligado ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado na época pelo general Augusto Heleno, um dos réus na ação penal aberta pelo STF sobre a tentativa de golpe na última transição presidencial.

A noticia da espionagem é baseada em um depoimento de um funcionário da Abin à Polícia Federal. As informações, divulgadas pelo Itamaraty, segundo a reportagem, contradizem provas colhidas pela PF que ouviu um servidor diretamente envolvido na operação. Esse servidor teria dito que as ações foram aprovadas sob a gestão do governo Lula, por Luiz Fernando Corrêa e pelo ex-diretor interino do órgão Saulo de Cunha Moura.

Ao apresentar as justificativas do Brasil ao Paraguai, o Itamaraty teria lembrado a informação de que Ramagem e a cúpula de segurança do governo anterior é investigada pelo uso “nada republicano” da Abin no processo conhecido como Abin paralela. Esse ingrediente constou nas explicações passadas por Vieira  ao correspondente paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, ainda na segunda-feira.

Após a conversa, o Paraguai publicou a primeira nota do país sobre o tema, na qual dizia não ter provas de ataque hacker brasileiro. Na sequência, o Paraguai convocou o embaixador paraguaio no Brasil, Juan Ángel Delgadillo, para consultas e pediu para o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes, dar explicações após suposta ação hacker do governo brasileiro.

Telefonema

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), disse que o governo não se omitiu em averiguar se houve a espionagem no governo anterior. Mas, para evitar um problema diplomático, só existe um jeito, segundo o senador: explicar. “E se for necessário, em última instância, ter um telefonema do presidente. Temos que fazer de tudo para não termos problemas com o Paraguai, país que tem, inclusive um trauma histórico com o Brasil”, disse o líder, lembrando da Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, que é o maior conflito armado entre dois países ocorrido na América Latina e que provocou cerca de 280 mil mortos do Paraguai e 60 mil mortos do Brasil. Segundo o Planalto, ainda não houve um telefonema de Lula para Peña e ainda não há previsão de que essa conversa ocorra.

Apesar dos esforços do governo brasileiro em explicar o incidente, a suposta espionagem já causou consequências. Na terça, a chancelaria paraguaia anunciou a suspensão de todas as negociações do novo Anexo C do Tratado de Itaipu Binacional até que o Brasil faça esclarecimentos sobre a suposta ação.

Apesar de o governo tratar o assunto como fruto de um uso indevido da Abin por parte do governo anterior, funcionários da Abin apontam, em reservado, se tratar de uma operação trivial, comumente realizada pela agência. Um agente indicou que a forma com que o Planalto vem tratando tem sido alvo de críticas em setores da Abin, na medida em que expõe a atividade desenvolvida pela agência.

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