Espionagem por Itaipu, uma quebra na confiança entre Brasil e Paraguai?

Brasil e Paraguai estiveram envolvidos esta semana em um surpreendente conflito diplomático, depois que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva admitiu uma operação de espionagem contra o vizinho, a qual foi atribuída à gestão de Jair Bolsonaro.

A revelação provocou a suspensão das negociações entre ambos os países no Mercosul sobre o preço da energia da hidrelétrica binacional de Itaipu, uma questão crucial na relação bilateral.

– Em que consistiu o espionagem? –

O site UOL publicou na segunda-feira (31) passada que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) espionou autoridades paraguaias durante o início do governo de Lula, que assumiu em janeiro de 2023.

A operação teria sido aprovada pelo atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, nomeado por Lula.

Imediatamente, o governo brasileiro negou “categoricamente qualquer implicação na ação de inteligência” e atribuiu a sua autorização à gestão do antecessor de Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo o Itamaraty.

De acordo com a imprensa, o objetivo da espionagem era conhecer a posição do Paraguai nas renegociações entre os dois países sobre as condições e os preços do fornecimento de eletricidade da hidrelétrica de Itaipu, construída sobre o rio Paraná, que faz divisa entre os dois países.

A Abin teria hackeado computadores de instituições paraguaias.

A Polícia Federal (PF) investiga há mais de um ano a instalação, durante o governo de Bolsonaro, de uma suposta “Abin paralela”, à qual é atribuída a espionagem ilegal de figuras políticas e jornalistas renomados no Brasil.

– Qual foi o impacto da revelação? –

O governo do presidente do Paraguai, o centro-direitista Santiago Peña, convocou na terça-feira o embaixador brasileiro em Assunção para que explicasse a operação e chamou para consultas o representante paraguaio em Brasília.

Em coletiva de imprensa, o chanceler paraguaio, Rubén Ramírez, anunciou ainda a suspensão de “todas as negociações” sobre Itaipu “até que o Brasil forneça as devidas explicações de forma satisfatória” para o Paraguai.

O embaixador do Paraguai no Brasil informou na quarta-feira ao seu chanceler sobre a “ação de inteligência” brasileira e acordaram um “monitoramento constante” do caso, segundo uma nota oficial.

As autoridades do Paraguai não atribuem uma intenção específica a Lula, “mas a espionagem estava em operação no seu governo”, disse à AFP uma fonte governamental paraguaia.

O Paraguai exige respostas sobre a duração e os objetivos da espionagem, os canais utilizados e as autoridades e instituições afetadas.

Para Carlos Mateo, ex-senador paraguaio e ex-diretor de Itaipu, “as circunstâncias são turvas e confusas, ainda não há muita clareza a respeito”.

Segundo analistas consultados, um pedido de explicações deste tipo não tem precedentes nas relações entre os dois países.

“É uma confissão extremamente embaraçosa para o Brasil” e “uma quebra de confiança nas relações entre governos (…) em meio a um processo difícil de renegociação”, afirmou à AFP o ex-diplomata brasileiro Paulo de Almeida.

Na quarta-feira, ambos os governos deram os primeiros sinais para diminuir as tensões e retomar os diálogos sobre Itaipu.

Segundo uma fonte do Itamaraty, o ministro das Relações Exteriores de Lula, Mauro Vieira, conversou com Ramírez, e delegações técnicas devem se reunir na próxima semana.

“Estamos prestando os esclarecimentos e o governo Lula já refutou qualquer envolvimento”, indicou a fonte brasileira à AFP.

A fonte governamental paraguaia disse, por sua vez, que “uma vez que o Brasil explique satisfatoriamente o que aconteceu, como estamos certos de que o fará, o Paraguai se sentará para conversar de novo sem nenhum problema”.

– O que está em jogo nas negociações? –

A usina hidroelétrica de Itaipu, em funcionamento desde 1984, tem sido motivo de desacordos frequentes entre os dois países.

Brasília e Assunção renegociam o tratado assinado em 1973, quando começou a obra, que divide a energia entre as duas nações.

As condições financeiras – o chamado “Anexo C” do tratado – estão no centro das negociações: o Paraguai busca aumentar os rendimentos recebidos pela energia que vende para o Brasil, que consome 85% da eletricidade produzida.

A hidrelétrica, uma das maiores do mundo com capacidade instalada (potência) de 14 mil megawatts, possui vinte turbinas. Uma única delas pode abastecer um milhão e meio de habitantes com energia.

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